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Sejamos sinceros, o pós-férias associado ao fim do verão traz consigo aquela pequena depressão tão hipervalorizada que até dá dó. O verão é tão démodé, tão coleção do ano anterior, tão pouco trendy que até dá pena. No verão não há notícias. Não há desporto à séria, não há nada porque o calor tira tudo. As cidades estão mais vazias e os locais que antes estavam vazios estão agora a rebentar. As pessoas limitam-se a trabalhar numa espécie de engorda que implica refeições exageradas e prolongados tempos de imobilidade. Tudo é uma seca, até o tempo. Se querem uma estação divertida, agarrem esta ideia: o outono é a melhor de todas.
A rentrée começa agora.
Antes de mais lembre-se disto: é no outono que a criançada abandona o perímetro e segue para onde é suposto estar: na escola. Local onde estão as pessoas com a formação (paciência) adequada para os educar (aturar) estes “mini nós”. Depois, é no outono que começa a época das caminhadas. E se nunca foi um entusiasta desta estação do ano foi porque nunca se dedicou seriamente a esta atividade. As caminhadas são de longe o desporto mais prazenteiro, mais contemplativo, mais acessível e mais saudável que alguma vez experimentou. Ah, e quase nos esquecíamos, são super, super divertidas.
Primeiro, porque no fundo não são um desporto (OK, quando se considera o xadrez um desporto tudo pode ser um desporto). Não há aqui qualquer tipo de competitividade, de meta ou de objetivo. O ritmo é o seu e as paragens são todas aquelas que quiser. Não há disciplina, não tem de ir concentrado, não tem de cumprir tempos. Não há promessas, votos de silêncio ou procura de redenção. Tudo o que tem de fazer é simplesmente caminhar e apreciar. Apreciar a natureza - alguns percursos são mesmo surpreendentes - o património e as pessoas. Acredite, é muito mais do que parece.
Existem percursos para todos e para qualquer tipo de pessoa. Existem longos, pequenos, lineares e circulares. Alguns de pendor mais humanizado, outros dentro de natureza mais profunda. Uns são mais acessíveis, outros mais exigentes e outros ainda que são autênticos desafios. A sensação de descoberta, essa está sempre presente. Em Portugal existem felizmente inúmeras opções, espalhadas um pouco por todo o lado, pelo que nunca terá de fazer grandes distâncias para meter os pés a caminho.
Para um percurso ser um “percurso” tem de ser homologado. Quem faz a homologação dos percursos em Portugal é a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal que no final de 2015 contava com 246 percursos homologados num total de 2.326,49km. Ufaaa.
Existem claro, percursos não homologados que podem ser tão bons ou melhores que os "oficiais", mas quando se pretende ter o mínimo de garantias quanto à sinalização, orientação e segurança o melhor é mesmo optar pelos homologados.
Comece a falar como um "pro" dos percursos.
"Fiz um linear de GR com um declive acentuado mas com muito PL" Não percebeu nada pois não? Claro! Ainda não é um "pro" e isto foi só para lhe mostrar quem é que manda aqui, OK?
Avançar destemido mato adentro de archote na mão, faca nos dentes e mochila às costas não é propriamente a mesma coisa que fazer um percurso pedestre. Aquilo que distingue os percursos pedestres das aventuras à tolinho no mato denso, é que no caso dos percursos o trilho está (ou supostamente deve estar) devidamente limpo e mais importante que tudo, devidamente sinalizado. Os percursos começam sempre com uma placa informativa onde se refere o número do percurso (num local podem existir vários percursos), a extensão (grande rota, pequena rota ou percurso local), a duração média, o nível de dificuldade, o declive, se é circular ou linear e algumas notas de segurança e cidadania. Sim, lá porque está fora de casa não é para rebentar tudo.
Ao longo do percurso irá encontrar placas indicando a direção que deve tomar ou pequenas marcas, pintadas em rochas e árvores que servem o mesmo propósito. As indicações são intuitivas e fáceis de perceber. O "X" não indica o tesouro mas indica que está no caminho errado. O "=" confirma que está no caminho certo e esquerda e direita são autoexplicativos.
OK, mas chega de conversa que aqui ninguém está na escola.
Agora a bola está nas suas mãos. Tudo o que tem a fazer é procurar um percurso perto de si, juntar um grupo de amigos, levar água e um bom farnel, e começar a aventura. Fazer uma caminhada sem máquina fotográfica é um pouco como ir a Roma e não ver o Bento. Os telemóveis são uma opção mas não são “a opção”. É que um dos prazeres das caminhadas é o safari fotográfico e, entre fauna, flora, património e pessoas, vai encontrar momentos únicos.
Por norma, os sites dos municípios disponibilizam sempre uma boa mão de percursos, mas para o ajudar deixamos aqui um site onde poderá encontrar a identificação de vários percursos. Com isto podíamos acabar o nosso artigo mas a consciência pede que lhe deixemos algumas notas finais com mariquices de regras de segurança e cidadania. É o que é. Bons passeios!
Lista dos percursos pedestres nacionais homologados: www.fcmportugal.com/files/PercursosPedestres/2015_RNPP_PPHomologados%2021-12-2015.pdf
Regras básicas:
Primeira regra e das mais básicas de todas: está no meio da natureza (mesmo que o seu percurso tenha aspetos de presença humana e arquitetónica), de propriedade privada ou pública por isso lembre-se que é você que se tem de adaptar ao percurso e não ao contrário.
Segundo a Federação, as regras de ética e conduta são:
1. Seguir somente pelos trilhos sinalizados;
2. Ter cuidado com o gado. Embora manso não gosta da aproximação de estranhos às suas crias;
3. Evitar barulhos e atitudes que perturbem a paz do local;
4. Observar a fauna à distância, preferencialmente com binóculos;
5. Não danificar a flora;
6. Não abandonar o lixo, levando-o até um local onde haja serviço de recolha;
7. Fechar cancelas e portelos;
8. Respeitar a propriedade privada;
9. Ter cuidado com o lume (talvez seja mesmo melhor não o fazer);
10. Não colher amostras de plantas ou rochas;
11. Ser afável com os habitantes locais, esclarecendo quanto à atividade em curso e às marcas do percurso.
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